
O sol brotava do rio como se estivesse sendo pescado por Deus. O sol estava sendo pescado por deus. Sim, porque em toda a sua infinita existência deus não nos desampararia da luz dos seus olhos galácticos nem um dia. O sol nasce para todos, ouvi uma vez, o sol brilha, rutila, incandesce, mas desavança pelo tempo volátil, pelo tempo-perfume, enquanto eu escuto, aquática, a cópula do rio com as areias escuras e quase frias dessa orla. Eu penso afoitamente muitas coisas que se derramam na minha mente desreguladas e que não consigo organizar, não sem antes por quase todo o dia pensá-las todas ao mesmo tempo. Deus está tranqüilo, pescando o sol como o faz em todas as manhãs, enquanto o resto da cidade recebe o domingo bêbada de festas, os travestis e prostituas recolhem seus perfumes de sexo pago, as últimas boates de stripe-tease preparam a última cena de suas garotas performáticas, viciados alternam-se no último baseado de mela, na última pedra de crack, tarados dão sua última volta pelas ruas desertas do centro a procura de sexo casual, supermercados abrem suas portas anunciando suas promoções piterodactilas de picanha, carvão e caixinhas de cerveja. O mundo que vem a seguir por essas próximas horas muito promete para nós que meio que pouco participamos dos grandes eventos disso que chamamos de nossa vida. Porque eu sou um daqueles que perde os momentos exatos de fazer a coisa certa. E tudo passa tão repentinamente que o que me resta são as historias que eu ouço e tento incorporar como experiências próprias para me sentir quase maduro. Parece que hoje, pós-decadentes acontecimentos de sábado comum, eu me sinto absorvendo as energias gastas de todos os bêbados e tarados e derrotados dessa cidade, como se fosse capaz de drená-las enquanto respiro diante da leve brisa da aurora que emana todos os cheiros e sensações da noite anterior em sua atmosfera. Poderia dizer aqui que nessa hora acendi um cigarro, pois cairia como uma luva, mas a verdade é que há muito tempo não fumo e que o que fiz foi caminhar por longo tempo pela orla do Santa Inês, desligado de tudo, embriagado no perfume liquido da maré cheia de cores cinzas e marrons de areias e águas hipnóticas, apenas pensava, desorganizadamente como costumo sempre pensar, acendia cigarros na mente, lembrava de velhos amigos, não percebia os que passavam por mim, o que estava do outro lado da rua, olhava apenas para a sagrada pescaria de Deus que salvava o mundo todos os dias, pelo menos por doze horas, da mais profunda escuridão.


7 comentários:
uau! que conto mais crepuscular. esse é o fim perfeito pra qualquer livro ou coisa do tipo. sinto-me trite..........
* triste
Estranho o lirismo antinietzschiano e piegas com o qual inicias esse conto(?). E mais ainda tua credulidade na misericórdia divina. Mas, então, de novo te reconheço, tão exposto quanto uma fratura, mais tu: impossível.
A lírica pieguice que dá início ao conto talvez seja explicada por Caio F. Abreu quando escreveu: “quando se quer explicar o inexplicável sempre se fica um pouco piegas” (O ovo apunhalado). Depois, tu também te “explicas” no próprio conto: “penso afoitamente muitas coisas que se derramam na minha mente desreguladas”. Pensar em Deus, acreditar na sua existência, crer em sua misericórdia não faz muito a tua cara; até mesmo como imagem poética, a aurora como pescaria de Deus para mim é intragável.
Aceitando a existência de Deus, é mais fácil pensá-lo um voyeur sádico que, ao seu bel-prazer, ilumuna o palco onde sua criação se degrada dia após dia tentando, talvez, encontrar um sentido para sua existência ou se compreender – questões estas tão pterodáctilas quanto as promoções anunciadas pelos supermercados do teu conto.
Mas o reencontrar-te não tarda: ante os marginalizados tanto da sociedade como da graça divina, tu pareces experimentar o oposto do “acostumado ao nada em tantas de suas formas”(Julio Cortázar); e ao assumir tua (nossa!) inapetência diante “dos grandes eventos disso que chamamos de nossa vida”, ratifica a simbologia da cópula entre rio e areias: o tempo-rio no seu vai e vem nos arrasta-areias sem que possamos impedir-lo e, pior, sem que possamos gozar, ter prazer.
Então, diante desse nada, acaba-te por te tornar meio que antropofágico, pois “o que me resta são as histórias que eu ouço”; viver sonhando o que não vive, o que queria viver: “poderia dizer aqui que nessa hora acendi um cigarro (...) mas a verdade é que há muito tempo não fumo”; e seguir em frente: “o que fiz foi caminhar por longo tempo”, mesmo que “desligado de tudo”.
Esta é apenas uma singela visita, tímida, mas presente. Como os pensamentos que nos acometem justo no momento que não queremos mais pensar...
Sana
Hum...ainda falta um pouco p lady delirio penetrar a vagina do seu blog com sue penis feito de borboletas e coisas assim....mesmo assim, eu acho que esse apice vqai chegar um dia, eu vou roubar a poesia do messias marciano
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Julio, ainda que Deus salve o mundo todos os dias da mais profunda escuridão, sinto que estamos meio abandonados neste mundo. Bj.
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