segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Medonho Fruto



Acordei entre flores azuis e cinzas as quais nunca antes tinha visto. O céu estava como se estivesse rachado de nuvens vermelhas, pude ver da janela. Rebeca era desse tipo de andróide que se envolve nas noites de sexta com anjos e com leopardos, vez ou outra devora dragões. Acordei cercado dessas flores enquanto Rebeca serenamente repousava seus circuitos ao meu lado. Ela havia fugido na noite passada de paparazos e de suas câmeras big brotheanas. Rebeca me procurou como a muito tempo não fazia. Estava exausto da sexta feira com os circuitos prestes a entrar em curto. De repente ela me liga e pede pra me visitar. Diz que está cansada do espetáculoquecriouemanosdefestasesolidõesquelhefezassimdemáquinadecalcularfeticheseposesprafotosdejornaisenelsonrubens. Havia algo de diferente quando transamos e eu pude sentir o cheiro de folhas nos seus cabelos e um gosto de folhas na sua língua. Rebeca estava deixando sua condição de máquina e travestia-se de vegetal. E foi assim que acordamos os dois maquinários, nascendo de nós um lindo jardim que extinguia voraz os circuitos e o controle robótico da vida. Nos jornais só o que se falava era que um medonho fruto nascera da promíscua relação de Rebeca. Que talvez essa fuga pudesse gerar uma nova moda de transformismo das máquinas em plantas. Que deveríamos ser presos por causar subversão as normas. Que não havia motivo para tanto pois estávamos numa democracia e éramos livres.

sábado, 22 de agosto de 2009

Naufrágios do espírito


Para os amores invertebrados, que insistem em sobreviver

Eu de Enceládo
Eu de Saturno
E tudo vazio no céu
E no mar
E nas lágrimas de adeus sideral...
(Carla Nobre – Em Cristal de Gêlo)

Feridas em brasa por dentro do grito
EU ando preocupado contigo, comigo. Preocupado no sentido de que estamos num ponto onde não queríamos estar. Olha, eu espero que você me perdoe, por ser assim, re-pe-ti-ti-vo, sempre que te digo. Desculpa minha dificuldade em articular as palavras, minha falta de objetividade. O mundo em que vivemos exige tanta o-b-je-ti-vi-da-de que eu fico perdido tentando comunicar com palavras minhas emoções e outras coisas pra você. Ok, estamos num ponto onde ninguém gosta de estar. É que anda fazendo tanto sol esses dias, tanto sol, que tudo vem me sufocando quando estou em casa, no trabalho ou em qualquer outro lugar. Agosto e julho são meses infernais nessa cidade. Eu podia tentar te falar de outro jeito, sei lá, Acho que poderia ser por versos, mas você não gosta de poesias. Então fico tentando te dizer assim mesmo, pelo espírito, sem muita objetividade, que os pássaros, os morcegos, os cisnes e os dragões estão todos embriagados por dentro do desespero que venho sentido. Tem um carnaval de tambores podres tocando funerariamente por dentro de mim e que vem me consumindo a cada passo canhoto dos meus dias. É que estamos mesmo ainda como pessoas que ardem e se esvaem em procuras, como na poesia. Nós estamos intumescidos de posses e de vaidades. Estamos nos despedaçando enquanto a roda do tempo gira vertiginosamente por sobre nós. Você não me entende não é? Você entenderia se eu te dissesse que as coisas não estão bem, que precisamos discutir a relação que eu ouvi coisas que você também ouviu coisas que isso que aquilo que enfim. Você entenderia se a comunicação fosse seca, mas eu não sei dizer dessa forma.

Pequenas estrelas que falam de dores
Olha, o céu, tão nu. Você, eu e o resto do mundo perdidos e infelizes para sempre nessas nossas histórias perdidas e solitárias sobre estar do lado, sobre ser e não ser e perder e ganhar e olha, você me fez de jambo podre tantas vezes enquanto eu me perdia por entre as noites quentes da cidade entre as ruas vazias, entre os travestis nas esquinas e os bêbados e os mauricinhos e as patricinhas e postes mal iluminados e por uma embriaguez que afunda em meu peito pássaros que sufocam agonizantes enquanto as espadas de dores cortam seus frágeis pescoços de esperança. Estamos, com toda certeza, num ponto onde não gostaríamos de estar porque nós dois e todo o mundo já viveu isso de não querer estar nesse ponto. Nossos espíritos ou qualquer coisa nesse sentido que possamos compreender e que está acima de nossa podre razãozinha estão naufragando em dias e horas e tempos em que tudo está vazio nos céus. Em que a margem ainda é distante e ainda não alcançamos nada além de feridas e gritos sufocados enquanto no espaço os cometas derramam-se por sobre a existência de coisas que a gente não pode sequer compreender por sermos tão inconsistentes e não-objetivos entre nós dois. Talvez seja isso mesmo. Infelizes para sempre. Sós os dois. O mundo inteiro. Os vagabundos que amanhecem pelas ruas no domingo e as estrelas e os sonhos e toda nossa vontade de estar com mas apesar de. Andróides dentro de uma underground programação, eu e você, numa liberdade que aprisiona.